terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ana caminhava pela rua suja, fria, escura. Solitária. As duas tão sós que seriam incapazes de fazer companhia uma para a outra. Ela trocava os passos, como quem valsa com as baratas, em meio à madrugada; Como quem ouve música no sopro de vento que gela.

Um passo após o outro. Buscando refúgio, buscando a própria casa. Passos que a guiavam sozinhos: ela não fazia parte desse corpo que a carregava. Ana era um poço de álcool que se move por sorte ou por inércia. Seu cheiro era uma mescla de vômito, cigarro e mijo. Algo a fez sair da festa; Algo a fez pegar o ônibus certo. Agora, este mesmo algo a protegia e a guiava com sua mão invisível para o conforto da própria casa. A chave estava na porta. Uma e, depois, a outra. Se arrastou até o quarto, mas não conseguiu encontrar a cama. Ela era o corpo bêbado que jazia no chão.

A noite girava como um carrossel; Como um brinquedo no parque de diversões. O vômito lhe rompendo os lábios, durante a madrugada, enquanto Ana ainda dormia. E dormia bem, feito criança. Morrer não era nada, nunca foi. O importante era viver os segundos, gozar cada goza como se fosse a última, sentir a morte e a vida presente em cada trago, em cada gole, em cada droga. Buscar a morte era o seu jeito de saber estar viva. Estar viva era seu motivo pra buscar a morte.

Sonhos sem sonhos. Um negro que ofuscava tudo, mas, ainda sim, o mundo rodava. O preto denegrecia, desbotava. Virava qualquer cor que não dava para identificar até ser pupila, íris e retina de um olho míope; Até o míope colocar os óculos e passar a ver além do desfocado; Até perceber algo além de cores difusas e enxergar as pessoas que dançavam, se entrelaçavam como que em transe. Deliravam.

Não havia pensamento. Tonteira, alegria babaca – falsa; entorpecida. Na mão direita, uma garrafa de vodca pela metade. Meteu a mão no bolso e procurou um baseado dentro do maço de cigarros. Acendeu. O ácido e o álcool faziam efeito, mas Ana precisava de mais. Precisava não ter razão, virar animal. Agir e não lembrar. Fumou enquanto cambaleava. Se assustou ao ver que havia menos de um quinto de vodca na garrafa, mas não deu muita importância pra isso. Foi ao banheiro.

Ana se recostou em uma das paredes, enquanto esperava vagar uma das cabines e ela só percebeu que uma menina a estava beijando, quando abriu os olhos. Esqueceu do banheiro e ficou ali. Beijos, toques, língua. Era se aventurar por mares revoltos de libido; Mares de ressaca. O enjôo e o tesão tentando disputar quem ganhava a sua atenção. Deitaram, as duas, no chão. Sexo no sexo; pele em vômito e urina alheia. Braços e pernas pisados por pessoas que ainda transitavam por ali. Uma, duas, três pessoas tentaram participar daquilo, ser parte dos gemidos que abafavam as conversas do banheiro. Um deles conseguiu. Uma silhueta magra, de pau arroxeado. E ele se pôs a preencher espaços, rasgando peles, trazendo urros de dor e prazer. Os três corpos enlameados no chorume humano que fluía das cabines em direção a eles. Ana não gozou, mas sentiu um jato de porra em sua perna, o que a fez pensar em gravidez; que o tal garoto não tinha usado camisinha. Vomitou.

Acordou do sonho o sabendo real. Era impossível não ser. Ela ainda ouvia a música que embalara o início do sexo, quando controlar a libido em sua mente entorpecida era surfar em tsunami: Era adrenalina, vitória, glória. A música estava ali. A ressaca pesava seu corpo, mas ela ainda a podia ouvir. A melodia maldita que a lembrava de como transformou vitória em derrota, quase Hitler, na Segunda Guerra Mundial. “L.A. Woman”, The Doors. Era o celular. Ana olhou, a ligação caiu. 16 chamadas perdidas – Mãe.

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